Nós2

Comunicação no relacionamento: como ser entendido

Atualizado:

Boa comunicação no relacionamento quer dizer: o outro entende o que você quis dizer e não se sente atacado. Para isso não é preciso nenhuma técnica de workshop. Bastam alguns hábitos que vocês podem treinar todo dia: falar de si em vez de falar sobre o outro, escutar sem já querer consertar, escolher o momento certo e perguntar de vez em quando, rapidamente, como o outro está.

Por que as conversas dão errado

A maioria dos mal-entendidos não nasce de alguém mal-intencionado. Nasce porque duas pessoas com histórias diferentes ouvem a mesma frase de jeitos diferentes. "Você chegou tarde de novo" pode ser uma constatação para um e uma acusação para o outro. Quem se sente atacado se defende. Quem se defende deixa de escutar. E aí duas pessoas falam ao mesmo tempo, sem que nenhuma chegue até a outra.

Vocês não conseguem evitar isso por completo. Mas podem diminuir a chance de a conversa virar.

Mensagens em primeira pessoa: falar de você, não sobre o outro

A diferença é pequena e pesa muito.

  • Frase com "você": "Você nunca me escuta."
  • Frase com "eu": "Estou com a sensação de que não chego até você, e isso me deixa triste."

A primeira frase é um julgamento. O outro precisa se defender ou concordar. A segunda descreve o que se passa em você. Contra isso ninguém argumenta, porque é a sua vivência. Ela convida mais a uma resposta como: "Ah, eu não queria que fosse assim."

Um modelo simples que muita gente acha útil:

  1. O que aconteceu? ("Quando você ficou no celular ontem durante o jantar...")
  2. Como foi para mim? ("... eu me senti ignorado(a).")
  3. O que eu desejo? ("Eu gostaria que a gente deixasse o celular de lado nas refeições.")

Isso não é fórmula para aplicar de maneira rígida. Se você soa como um manual, deixe de lado e diga com as suas palavras. O que importa é a ordem: primeiro descrever, depois sentir, depois pedir. Um pedido, aliás, é diferente de uma exigência. Num pedido o outro pode dizer não, e justamente por isso fica mais fácil dizer sim.

Cuidado com frases em primeira pessoa que, na verdade, são acusações: "Eu sinto que você é egoísta." Isso é um julgamento sobre o outro com um "eu" na frente.

Escutar sem consertar

Muitos de nós fomos treinados para resolver problemas. Quando o par conta que o chefe irritou, vem na hora um conselho: "Então diz para ele simplesmente..." É bem-intencionado, mas muitas vezes chega como "você não fez direito".

Com frequência o outro quer, primeiro, só ser ouvido. Vocês podem testar assim:

  • Perguntem: "Você quer que eu escute, ou está procurando uma ideia?" A frase leva três segundos e poupa muita mágoa.
  • Devolvam o que ouviram: "Então você ficou bravo porque ele falou assim com você na frente de todo mundo." Se vocês erram, o outro corrige. Se acertam, ele se sente compreendido.
  • Façam uma pergunta aberta em vez de uma solução: "O que mais te irritou nisso?"
  • Larguem o celular. Parece banal, e mesmo assim é onde a maioria fracassa.

Escutar não significa concordar. Você pode dizer: "Eu vejo diferente, mas agora entendo por que isso te atingiu tanto." Essa frase vale mais do que um "aham, aham" sem vontade.

O momento certo

Uma boa questão no momento errado cai no vazio. Ruins são estes:

  • Quando alguém acabou de entrar em casa, com fome ou exausto.
  • Logo antes de dormir, quando ninguém consegue mais pensar.
  • Na porta, quando um já está de casaco.
  • Na frente de outras pessoas, se o assunto é pessoal.
  • Por mensagem de texto, quando é mais do que uma pergunta de horário. Tom e intenção se perdem rápido no texto.

Melhor é anunciar a conversa: "Queria conversar com você sobre uma coisa importante para mim. Pode ser hoje à noite depois do jantar?" Assim o outro consegue se preparar por dentro. E, se ele disser que agora não dá, tudo bem, desde que vocês marquem outro horário. "Depois" sem data é um jeito educado de nunca conversar.

Pequenos check-ins diários

A maioria dos casais fala de organização: quem pega a criança, o que vamos comprar, quando vem o técnico. É necessário, mas não é uma conversa sobre vocês. Quando é a única, depois de alguns meses vocês percebem que funcionam bem como equipe e mesmo assim ficaram estranhos um para o outro.

Um check-in não precisa ser longo. Cinco a dez minutos bastam:

  • O que foi bom hoje, e o que foi cansativo?
  • Há algo que eu possa fazer por você amanhã?
  • Teve um momento em que você se sentiu ignorado(a) por mim?

Uma variante para dias em que ninguém tem energia para uma conversa longa: os dois respondem à mesma pergunta, cada um por si, e só depois leem a resposta do outro. No Nós2 funciona exatamente assim, com uma pergunta por dia. Como ninguém vê a resposta do outro antes, ninguém se adapta sem perceber.

O que importa é a moldura: celulares longe, nada de oferecer soluções, não interromper. Um fala, o outro escuta, depois trocam. Um lugar fixo ajuda, como o sofá depois do jantar ou a caminhada da noite.

Se de repente nada vem à cabeça, perguntas que vão além de "como foi o seu dia?" podem ajudar. Algumas vocês encontram em perguntas para fazer ao parceiro. Bons exemplos do dia a dia são:

  • Que gesto meu salvaria na hora um dia ruim para você?
  • Como você percebe que estou num dia ruim antes de eu dizer qualquer coisa?
  • Como você quer ser consolado(a) quando está muito mal?

A terceira pergunta é especialmente útil, porque quase ninguém diz de antemão como precisa de consolo. Depois, espera-se que o outro adivinhe.

Falar de necessidades

Por trás de quase toda briga há uma necessidade que ninguém disse em voz alta. "Você nunca arruma nada" muitas vezes quer dizer "Eu me sinto sozinho(a) na responsabilidade" ou "Preciso de sossego em casa". A frase sobre a arrumação é a embalagem. A necessidade por trás é o que importa de verdade.

Vocês chegam mais perto disso se se perguntarem:

  • De que eu preciso agora, de verdade? Proximidade, sossego, reconhecimento, alívio, tempo para mim?
  • Eu já disse isso com clareza, ou espero que o outro perceba?

Ter de ler pensamentos não é romântico. É cansativo. Principalmente em casais que estão juntos há muito tempo, a ideia de que o outro "deveria saber" resiste com teimosia. Ele não sabe. Diga.

E o contrário também: perguntem. "O que você precisa de mim agora?" é uma das frases mais curtas e melhores que existem num relacionamento.

O que vai junto sem palavras

Boa parte do que chega não está nas palavras: tom de voz, olhar, postura, suspiro. Quem diz "tá tudo bem" revirando os olhos manda duas mensagens. O outro costuma responder à segunda.

Para o dia a dia isso quer dizer: reparem se o tom combina com as palavras. E, quando vocês perceberem que o outro diz uma coisa e o rosto mostra outra, perguntem com carinho: "Você diz que está tudo bem, mas parece tenso(a). É isso mesmo?"

Áudios e mensagens de texto

Escrever é prático e arriscado. Ironia chega mal, brevidade parece frieza, e uma pausa entre duas mensagens logo é interpretada. Algumas regras ajudam:

  • Para sentimentos, melhor falar do que digitar. Um áudio leva um calor que o texto não tem.
  • Quando um chat desanda, parem de escrever e liguem, ou esperem até se verem.
  • Perguntem antes de interpretar: "Você está falando sério ou é brincadeira?"

Quando mesmo assim não dá

Alguns temas giram em círculo, por mais cuidado que vocês tenham ao conversar. Aí o problema costuma ter menos a ver com a técnica de vocês e mais com padrões que estão mais fundo. Buscar apoio nisso não é fracasso. Mais sobre como lidar com brigas e quando a terapia de casal faz sentido está no texto sobre brigas no relacionamento.

Uma sugestão para esta semana

Escolham uma coisa e experimentem por sete dias:

  • Uma vez por dia, dez minutos de conversa sem celular.
  • A cada irritação, formar primeiro uma frase em primeira pessoa, antes de falar.
  • A cada problema, perguntar: "Escutar ou ajudar?"

A mudança raramente é dramática. Mas, depois de algumas semanas, vocês notam que adivinham menos e sabem mais.

Se procuram um motivo pequeno e fixo, deem uma olhada no Nós2. Os três primeiros dias são grátis; depois, vocês pagam um preço só, para os dois.

Leia mais